Porque que você não sai da minha cabeça? Eu to cansada de você aqui, me olhando, me analisando, esperando uma mudança minha. Estou cansada de pensar no que poderia ter sido, no que não foi. Eu não te quero aqui. Sua presença atesta minha falta de tato, o raso das minhas relações, o gelo que parece nunca derreter. Lembrar você é me ouvir dizer a mim mesma que nunca vou mudar. Que nunca vou baixar a guarda, que não se supera algo que não te arrebatou porque nada me arrebata, porque precisa ter vida pra sentir. Espero o estado de fusão que ainda não chegou. Espero. Mas tudo que se aquece, encontra passagem aberta pro frio de novo. A confiança é a única que passa despercebida pela sublimação.
Você é uma poesia preste a ser parida. Prestes a ser engolida como a saliva de quem tem a boca seca, como a parada cardíaca de quem não cometeu excessos. Você é a personificação da licença poética, a calma de observar os pássaros que comem goiaba, o eco de uma mãe que soluça o nascimento do primeiro filho, a lágrima da adolescente que recebeu sua primeira carta de amor, o gemido de uma mulher quando goza. Você é o abraço de irmãos que não se vêem há anos, o colo de avó que acaricia a neta, o fim de tarde ouvindo o conselho dos nossos mais velhos. O primeiro bolo que não sola. Você é o sorriso da primeira composição de uma artista, o grito da menina de quatro anos que faz um gol, o suspense do homem que sabe ser inocente, a satisfação de quem aprendeu a nadar. Você é os primeiros passos do bebê, o sim do casamento, o olhar de cumplicidade entre melhores amigas. A risada da criança tomando banho de chuva. Você é o canudo do diploma da formatura, é a sensação do açúcar descendo pela lí...