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Dança

Agora que acho que me livrei de você, volto aos meus livros e me livro do peso que é esperar sua chegada. Te livro da angústia do não ser, do não sentir. Agora que eu acho que dei uns passos para trás, eu vejo sua passagem breve, sua pele cheia de manchinhas do tempo, suas cicatrizes. E me percebo dançando entre elas, tocando e dizendo que eu as reconheço, mas elas não fazem parte de mim. Somos duas partes de um quebra cabeça muito maior e mais denso que a paixão. A gente conversa, se atrai e se repele porquê nenhuma de nós quer menos atenção. Você, parte principal desse processo, tenta enxergar de longe para não se perder na gente. Agora, que acho que não somos mais parte uma da outra, vejo você dançar em mim. Você toca minhas feridas, lambe minhas cicatrizes, arranha minha dor de realidade e a minha preguiça de não ser. Você flutua tentando se distanciar, mas a brevidade do acaso te puxa pro chão. Me puxa pro chão também. Fincando meus pés como raízes, me plantando em mim igual dia de chuva. A chuva me põe dentro de mim e eu me rego pra crescer na raiz dos meus pés. Enraizar enquanto você faz de minhas dores o seu corpo de baile. E por mais incrível que pareça, eu sou sua maestra, eu te guio no compasso dessa dança, te mostro os movimentos mais difíceis e depois te deixo, fluída, livre, zanzando por baixo da pele. Mas agora, depois de toda tragédia ensaiada e toda cicatriz remexida, me vejo indo embora de ti, vejo você se acalmar e vou me acalmando junto. Você percebe a beleza da dança a duas? Sinto por sua ida, mas agora agradeço por sua chegada. Me despeço desse teu corpo-universo que a gente chama de casa. E me livro do peso que é esperar tua chegada.

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