Agora que acho que me livrei de você, volto aos meus livros e me livro do peso que é esperar sua chegada. Te livro da angústia do não ser, do não sentir. Agora que eu acho que dei uns passos para trás, eu vejo sua passagem breve, sua pele cheia de manchinhas do tempo, suas cicatrizes. E me percebo dançando entre elas, tocando e dizendo que eu as reconheço, mas elas não fazem parte de mim. Somos duas partes de um quebra cabeça muito maior e mais denso que a paixão. A gente conversa, se atrai e se repele porquê nenhuma de nós quer menos atenção. Você, parte principal desse processo, tenta enxergar de longe para não se perder na gente. Agora, que acho que não somos mais parte uma da outra, vejo você dançar em mim. Você toca minhas feridas, lambe minhas cicatrizes, arranha minha dor de realidade e a minha preguiça de não ser. Você flutua tentando se distanciar, mas a brevidade do acaso te puxa pro chão. Me puxa pro chão também. Fincando meus pés como raízes, me plantando em mim igual dia de chuva. A chuva me põe dentro de mim e eu me rego pra crescer na raiz dos meus pés. Enraizar enquanto você faz de minhas dores o seu corpo de baile. E por mais incrível que pareça, eu sou sua maestra, eu te guio no compasso dessa dança, te mostro os movimentos mais difíceis e depois te deixo, fluída, livre, zanzando por baixo da pele. Mas agora, depois de toda tragédia ensaiada e toda cicatriz remexida, me vejo indo embora de ti, vejo você se acalmar e vou me acalmando junto. Você percebe a beleza da dança a duas? Sinto por sua ida, mas agora agradeço por sua chegada. Me despeço desse teu corpo-universo que a gente chama de casa. E me livro do peso que é esperar tua chegada.
Você é uma poesia preste a ser parida. Prestes a ser engolida como a saliva de quem tem a boca seca, como a parada cardíaca de quem não cometeu excessos. Você é a personificação da licença poética, a calma de observar os pássaros que comem goiaba, o eco de uma mãe que soluça o nascimento do primeiro filho, a lágrima da adolescente que recebeu sua primeira carta de amor, o gemido de uma mulher quando goza. Você é o abraço de irmãos que não se vêem há anos, o colo de avó que acaricia a neta, o fim de tarde ouvindo o conselho dos nossos mais velhos. O primeiro bolo que não sola. Você é o sorriso da primeira composição de uma artista, o grito da menina de quatro anos que faz um gol, o suspense do homem que sabe ser inocente, a satisfação de quem aprendeu a nadar. Você é os primeiros passos do bebê, o sim do casamento, o olhar de cumplicidade entre melhores amigas. A risada da criança tomando banho de chuva. Você é o canudo do diploma da formatura, é a sensação do açúcar descendo pela lí...