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Seca

Não me venha com conta gotas, sou gulosa demais para dez por cento. Suas gotas não matam a fome do meu corpo, ele precisa de muito mais. Como a terra vermelha do meu nordeste, minha língua clama pela sua. Seca. Rachada. Como o barro que enfeitiça e castiga minha terra. Faça chover. “chova-se”. Molha-me. Uma dose alta de você e nada mais me atinge.

Várias pedras e um castelo

Um dia nós vamos ter uma briga feia, e eu vou te dizer todos os alvoroços que ficam entalados na minha garganta. Um dia, quando eu lhe arremessar copos e pratos, quando você esmurrar a parede, eu vou saber que chegamos no nosso limite e que já não dá pra remediar. 

Efeito borboleta.

É natural demais, quase como os processos biológicos do meu corpo. Sinto-os até em sua viagem pelas veias e artérias, sendo levados a todos os recantos do corpo e depois se esvaindo pelas pontas dos dedos em direção ao universo. É pra equilibrar. Primeiro me lava, e depois leva outro alguém a conhecer o mesmo processo. E não poderia ser diferente, não seria correto manter só pra mim quando ele aquece e brilha tão sozinho como o sol, tão próximo quanto o vento mais suave, tão forte quanto o balanço do mar em dias de tempestade. Tão natural como o bater de asas de uma borboleta que altera em segundos toda e qualquer coisa que poderia existir, ou que viesse a ser. 

Pra ser oceano

Difícil é ser rio quando todos os outros são riacho. Ou arrebentar as paredes da represa e correr, fluida. Virar mar. Espalhar ideias como se fossem as águas claras do Atlântico. Encharcar os pés e subir pela epiderme daqueles que, tímidos, se banham aos poucos, mas que no final se entregam, e acordam. Ser rio, desaguar no mar. Oceano em breve.

Orlando Pedroso II

La petit mort

Menos de cinco segundos e tudo acaba.  A dor, a fome, o torpor.  Salvo os raros, que duram intermináveis dez segundos. Agonia, suspiro, alivio. Tudo deixa de ser durante o vai e vem da consciência plena.  Nada é pouco demais. A vida não é e nem precisa ser.  Resume-se a cinco segundos. Vida e morte. Dor e fome. Agonia e alivio. O dito e o não dito, confundindo-se no momento que antecede o cheiro. A mesma duração de um suspiro. O segundo incontável em que contraem-se os dedos e fecham-se os olhos. E explode.  La petite mort.

Tudo pode acontecer.

É sábado à noite. Todos estão na rua escondendo-se de sua solidão. É sábado à noite. Todos os copos estão cheios em Happy hours barulhentos escondendo a necessidade de um olhar brando e um medo de ficar sozinho. É noite de sábado. Pessoas normais também ficam em casa alimentando ideias vazias com pratos cheios de comida barata e música cult para aliviar a alma. E todos eles acham que são melhores em suas diferenças. No final, são todos parte de um rebanho e peças de um teatro móvel que ninguém sabe onde vai dar, mas é sábado, à noite.