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Quarta-Feira

O relógio já bate 3 da manhã. Me viro e encontro você na cama me esperando pro abraço. Logo aperta meu braço ao seu redor, me puxando pra mais perto. Eu beijo suas costas.
A noite começou como todas as outras, nós dois em sua cama, dividindo coisas que não contamos a qualquer pessoa, só aquelas que possuem a mesma energia que a gente, aquelas que a gente encontra e se reconhece logo de cara, aquelas que a gente tem a certeza que vai deixar marcas.
Você ronca, eu dou risada, te apertando cada vez mais na tentativa de me gravar em você, de penetrar nos seus sonhos e perturbar sua existência da mesma forma que você perturbou a minha. 

O sono custa a voltar e eu fico tentando enxergar os detalhes da suas costas e cabeça, visualizando os pelinhos espaçados que você possui em meio a pele lisa, o formato bonito do seu pescoço. Tudo isso nas minhas lembranças, pois a pouca claridade que entra pela janela não deixam eu enxergar com clareza.
Clareza... É algo pouco presente no que estamos tendo, e essa "coisa" que a gente vive não nos dá certeza absoluta de nada. Mas é isso que é vida não é? Agir, esperar a reação do outro, imaginar mil significados em algumas poucas palavras sobre o que de fato temos.
Você insiste em dizer que não sabe o que é, e eu tenho vontade de te beliscar, pra ver se você acorda, figurativamente falando, porque agora não quero você acordado. Quero te ver dormir e pedir pra que a noite demore a passar.
Você quase não se mexe, sempre dorme parado, suspirando mais fundo uma vez ou outra. Eu apenas jogo minha perna sobre a sua.
Sobre tudo que falamos antes de dormir, só consigo lembrar do seu rosto quando fica pensativo. Confesso que não gosto, pois parece que você consegue me analisar mais do que o de costume. E esses olhos azuis me tiram o fôlego quando queimam, pois toma todo o seu rosto e me toca quando sua respiração me atinge.
Você é louco por despertar em mim o que eu tentei, com afinco, adormecer. E jurei a mim mesma encarnar o papel astrológico que a mim foi designado.
Balela pura, infelizmente sempre fui de pouca fé, nos planetas e em deuses. Cética dizem uns, eu prefiro chamar de "síndrome de Pedro", aquela que nega até reconhecer que é verdade.
Se você estivesse acordado eu te diria, mais uma vez, quão medrosa eu me tornei. Medo de que descubram todas as loucuras que carrego comigo, todas as fraquezas humanas que me atingem, e me fazem ser quem eu sou.
Jogo o travesseiro para o lado, com um pouco de irritação porque mais uma vez você está com o meu. Te solto do abraço e me concentro no barulho do ventilador, quem sabe o sono volta. Quem sabe em sonhos a gente se encontra e você me diz de fato, o que você quer de mim, e porque logo eu, entre tantas.
Você não viu, e eu também não, mas em algum momento passamos a pensar diferente. Eu, que coloquei todas as rédeas e construí todos os muros, baixei a guarda e abri as portas, pra de bom grado, receber o que você estivesse disposto a me dar, e entregando assim as poucas certezas que tenho. Mas foi você que começou a construir suas paredes, na tentativa de manter-se seguro.
Mas te juro, não represento perigo.
Amanhã, quando a gente acordar, vou pedir que retire os freios. Não que você precise pisar fundo no acelerador, mas se acontecer, sou eu quem vou abrir a porta da garagem e deixar que estacione em segurança.

Por hora, não desliga o carro, não acorda. Não quero que o farol apagado, e nem perder a chama dos seus olhos. Que mesmo no escuro, me ilumina e aquece.

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