Pular para o conteúdo principal

Abrigo

Em dias de chuva detesto sair de casa. Sabe, acho que chuva é Deus dizendo pra gente que é dia de folga. Deveria ser automaticamente feriado se o dia amanhece nublado.
Não que eu não goste dos dias chuvosos e nem do inverno, pelo contrário! Adoro o cheiro da terra molhada que combina com o cheiro do café quente, aquele de coador, forte e amargo. Adoro as gotinhas que se formam nas plantas, e o caminho percorrido por elas da superfície ao chão. Amo o barulho da chuva batendo no telhado e invadindo as frestas da janela com o vento forte.
Mas em dia de chuva procuro abrigo. Ficar em casa debaixo do cobertor ou sair agasalhada para que nem os pés fiquem molhados. É que mesmo amando a chuva, no frio que vem com ela, procuramos o calor.
Por muito tempo tenho sido apenas chuva, e tudo transbordava frieza. Parecia que não haveria para mim mais nenhuma conexão, nenhuma frente de calor se aproximava o suficiente pra esquentar. Ando procurando onde me agasalhar desde então, mas algo que funcione, pois quando o frio é na alma não importa o sol que faz do lado de fora, o corpo treme e pede por algo quente.

E foi aí que você chegou. Quando a sensação de que não haveria remédio pra frente fria que se instaurou, quando o costume das coisas secas e quase sem vida já estava se instalando, quando os olhos já nem se importavam com a vida sem cores e eu começava a enxergar beleza apenas no cinzento do mundo, você chegou. Descobri que frio é bom, mas estar aquecida e abrigada é ainda melhor. Você é meu abrigo, me deixa morar em você. 

Postagens mais visitadas deste blog

Distúrbio de ritmo

Não quero que ouças minhas músicas, elas me pertencem. Saber que tu as ouve é o mesmo que sentir que ainda não me deixou pra trás. Não posso aceitar que algo que é meu, que em mim virou segunda pele, seja profanado pelos teus ouvidos e pela tua boca, mesmo que essa boca já tenha conhecido a primeira pele. Mas a segunda não, essa é só minha, ninguém conheceu e eu não tenho vontade de lhe mostrar. Não posso aceitar que me deixes ir embora, mas faça questão de ter um pedaço meu. Então dá cá minhas coisas, esquece as músicas que lhe mostrei, e deixa a pele crescer e aquecer o que você deixou.

Oxum é amor, Oxóssi é firmeza.

Os pássaros cantavam quando caminhei pelo entorno de Oxum. Sua melodia compôs a música que embalava meus passos. O vento, com sua leveza, coparticipou do soneto e misturou-se aos arranjos de vida que tocaram minha pele. Balançou levemente e persistentemente a estrutura óssea, pélvica, nervosa, capilar e emocional dentro de mim, tal qual o balanço das árvores verdes que crescem na beira do rio. O encontro de Oxóssi e Oxum me toca profundamente e desperta em mim a sensação de agradecimento pela vida, pelo ar que eu respiro, por ser quem eu sou. Meus olhos não se afastam do rio e nem do verde. Meus olhos contemplam a beleza dos pássaros que se banham e se relacionam nas águas deste rio. Eu vou seguindo e deixando o som da correnteza embalar minha respiração. Que eu seja a correnteza que passa e lava todo pensamento de desamor e toda forma de autossabotagem, porque Oxum é amor. Que eu seja como as árvores frondosas da mata, que balançam e permanecem de pé, enraizadas, porque Oxóssi é firme...

VIVA-SE