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Tesão


Lembro que seus olhos ardiam na primeira vez que me viu. Não me pergunte sobre a roupa que vestia, a música que tocava ou a hora exata que vi você me enxergar. Só lembro do calor repentino para uma noite fria de agosto e do ardor dos seu olhos. Você me comeu sem nem mesmo me tocar. A música tocando longe, as conversas foram sendo abafadas, e seus olhos me despindo no meio do bar. Piscando mais rápido que os milésimos pra gravar todos os meus traços, me arrepiando de antecipação ao te ver molhar os lábios.
Meus olhos já nem tinham mais cor de tanto desejo. A vontade era de arrancar tua pele com a unha e fazer perfume pro dia a dia. Souvenir. Emoldurar sua cara que brilhava com o ar de quem não acreditava está com a mulher mais linda do mundo. Seus olhos me contaram.
A vênus em áries fazia rebuliço dentro de mim. Analisando os sinais, interpretando as pistas que você me deu. O papel, o número, a ousadia e a distância. A espera.
Os dedos descobrindo a gruta, caminhando entre os pelos e deslizando pelo calor úmido. Encharcados de desejo e vida. Você engolindo a minha boca e sugando o ar dos meus pulmões, puxando tudo de dentro de mim. Mordendo e arrancando meus lábios. Já nem me pertencia, mole e solta em seu colo.
O apelo do meu corpo gritando pelo seu. A carne dura e macia sendo massageada. Sentir tão duro em minha barriga, suas mãos em meu pescoço enquanto, na ponta dos pés, me sustento pra também rasgar sua boca, te engolir e me sugar de volta pra dentro de mim, trazendo você junto.
O apelo a todas as divindades para que não termine. Seus olhos me dizendo que iria mais fundo. Me revirando por dentro. Me colocando de costas e descobrindo por trás. Meus gritos. O ápice.
- Eu vou bagunçar seu cabelo.
Eu não tinha intenção alguma de voltar pra casa arrumada.

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