O processo de reconhecer sua identidade étnica é difícil e doloroso. Somos o tempo todo impelidos a negar uma existência criativa por conta de um discurso racista e classista que permanece se atualizando e criando barreiras físicas e psicológicas para a população preta. A mesma sociedade que me nega o direito de (re)existir em minha identidade também me classifica enquanto negra. Eu sou negra porque disseram que eu era negra e que existia uma maneira de ser negra. E se essa maneira existe, pessoas pretas não conseguem não reproduzir essa maneira, pois ela já está imbricada na consciência coletiva de pretos e não-pretos. Não consigo deixar de ser negra e por muito tempo nem reconhecia o que era ser negra. Roubaram a África de mim e me deram o Brasil, que nunca me aceitou, pra eu chamar de casa. Me deram uma população miscigenada, que colhe os frutos dessa miscigenação sem se perguntar porquê o fruto branco é bom e o fruto preto não é. Criaram uma rede de classificação e hierarquização de pessoas com base em seus fenótipos, redes de sociabilidade, experiências de vida e origem social e depois me chamam de "nega maluca" quando me rebelo e uso minha identidade como arma de fortalecimento dos meus e para os meus. Ser uma mulher negra que se define por si própria e não em relação ao branco. Minha (re)construção passa pela descolonização do meu conhecimento, da minha mente e da minhas atitudes. Passa também por saber quem somos, como somos e quem eles são, o que fizeram e como usam nossa história em comum. E lembrar que a África é um continente e o Brasil, um país. Ubuntu!
Escrevo o que penso, ensaio o que sinto. Nem tudo é real, mas tudo sou eu.