O processo de reconhecer sua identidade étnica é difícil e doloroso. Somos o tempo todo impelidos a negar uma existência criativa por conta de um discurso racista e classista que permanece se atualizando e criando barreiras físicas e psicológicas para a população preta. A mesma sociedade que me nega o direito de (re)existir em minha identidade também me classifica enquanto negra. Eu sou negra porque disseram que eu era negra e que existia uma maneira de ser negra. E se essa maneira existe, pessoas pretas não conseguem não reproduzir essa maneira, pois ela já está imbricada na consciência coletiva de pretos e não-pretos. Não consigo deixar de ser negra e por muito tempo nem reconhecia o que era ser negra. Roubaram a África de mim e me deram o Brasil, que nunca me aceitou, pra eu chamar de casa. Me deram uma população miscigenada, que colhe os frutos dessa miscigenação sem se perguntar porquê o fruto branco é bom e o fruto preto não é. Criaram uma rede de classificação e hierarquização de pessoas com base em seus fenótipos, redes de sociabilidade, experiências de vida e origem social e depois me chamam de "nega maluca" quando me rebelo e uso minha identidade como arma de fortalecimento dos meus e para os meus. Ser uma mulher negra que se define por si própria e não em relação ao branco. Minha (re)construção passa pela descolonização do meu conhecimento, da minha mente e da minhas atitudes. Passa também por saber quem somos, como somos e quem eles são, o que fizeram e como usam nossa história em comum. E lembrar que a África é um continente e o Brasil, um país. Ubuntu!
Perdi as contas de quantas vezes eu abri a nossa conversa pra ver se tinha coragem de enviar alguma mensagem. A minha torcida para que você estivesse escrevendo algo era maior que a torcida do Brasil em época de mundial feminino e masculino. Tem emoção demais nesse processo. Mas seu online não durava muito tempo. Você sumiu. Eu sinto saudades. Mas não vou te procurar. Respeitar seu tempo é isso, não é? Depois de tudo que te falei, de todos os pratos que pus na mesa, não pode ser eu a ir até você, porque foi você quem se sentiu pressionada. Então eu me afasto, e fico no escuro. Sem saber se em alguma hora você vai chegar, se vai fazer questão de mim. É horrível se ver nessa situação, de quem se apaixonou novamente quando nem achava que tava pronta pra isso. Mas tem uma beleza também, porque me mostra que alguns processos anteriores já foram esquecidos, algumas dores já foram curadas e eu estou pronta pra outra. Queria que a outra fosse você e lembro de quando você disse que esperava qu...