O processo de reconhecer sua identidade étnica é difícil e doloroso. Somos o tempo todo impelidos a negar uma existência criativa por conta de um discurso racista e classista que permanece se atualizando e criando barreiras físicas e psicológicas para a população preta. A mesma sociedade que me nega o direito de (re)existir em minha identidade também me classifica enquanto negra. Eu sou negra porque disseram que eu era negra e que existia uma maneira de ser negra. E se essa maneira existe, pessoas pretas não conseguem não reproduzir essa maneira, pois ela já está imbricada na consciência coletiva de pretos e não-pretos. Não consigo deixar de ser negra e por muito tempo nem reconhecia o que era ser negra. Roubaram a África de mim e me deram o Brasil, que nunca me aceitou, pra eu chamar de casa. Me deram uma população miscigenada, que colhe os frutos dessa miscigenação sem se perguntar porquê o fruto branco é bom e o fruto preto não é. Criaram uma rede de classificação e hierarquização de pessoas com base em seus fenótipos, redes de sociabilidade, experiências de vida e origem social e depois me chamam de "nega maluca" quando me rebelo e uso minha identidade como arma de fortalecimento dos meus e para os meus. Ser uma mulher negra que se define por si própria e não em relação ao branco. Minha (re)construção passa pela descolonização do meu conhecimento, da minha mente e da minhas atitudes. Passa também por saber quem somos, como somos e quem eles são, o que fizeram e como usam nossa história em comum. E lembrar que a África é um continente e o Brasil, um país. Ubuntu!
Você é uma poesia preste a ser parida. Prestes a ser engolida como a saliva de quem tem a boca seca, como a parada cardíaca de quem não cometeu excessos. Você é a personificação da licença poética, a calma de observar os pássaros que comem goiaba, o eco de uma mãe que soluça o nascimento do primeiro filho, a lágrima da adolescente que recebeu sua primeira carta de amor, o gemido de uma mulher quando goza. Você é o abraço de irmãos que não se vêem há anos, o colo de avó que acaricia a neta, o fim de tarde ouvindo o conselho dos nossos mais velhos. O primeiro bolo que não sola. Você é o sorriso da primeira composição de uma artista, o grito da menina de quatro anos que faz um gol, o suspense do homem que sabe ser inocente, a satisfação de quem aprendeu a nadar. Você é os primeiros passos do bebê, o sim do casamento, o olhar de cumplicidade entre melhores amigas. A risada da criança tomando banho de chuva. Você é o canudo do diploma da formatura, é a sensação do açúcar descendo pela lí...