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Meus pés pedem a terra e o meu corpo pede o sol.

Dias de quarentena de mim. Um olhar na barriga, outro no peixo e três no gato para não se perder dentro dos cômodos de casa.
Um excesso de mim mesma e a única saída é esvaziar, deixar que o Eu desague, manso, leve, firme.
A luz do abajur cega meu sentidos tortos e nublados pelo respirar fora de órbita. Meus pés pedem o chão. Toda eu sou feita de sonhos e teorias de conspiração neurótica. nada lúcido viver como quem sabe seus traumas, mas não os cura.
Aterrar. Aterramento. Meus pés pedem o chão. Minhas raízes ora estão aguadas demais, ora secas e poeirentas. O que será que isso tem a ver com a minha mãe e avó? Que estranhas as entranhas da vida que solidificam meus nervos e evaporam meu sangue sem que esse caia na terra. A terra me expulsa de mim? O rio se retira do meu suor? As matas secam nos fios dos meus cabelos crespos? O que será que isso tem a ver com a ancestralidade que me sustenta e me põe de pé?
Quantas são as mãos que me carregam e quais cores elas tem?
Meus pés pedem a terra e o meu corpo pede o sol. Sou uma planta cheia de emoções díspares, de contradições ímpar e um coração de carne viva. Vermelho sangue, vermelho barro, vermelho tinta que pinta o rosto da Cabocla, vermelho tinto que balança da saia da moça. Vermelho me consome mas não verte de mim. Parece que a terra me expulsou e que o rio não reconhece mais meu suor-sangue. Quantos anos tem que não vejo o sangue das minhas entranhas, que não sinto as dores de ser visceralmente mulher. Quantas luas tem que a lua não me toca, me banha e me modifica?
Vaporizar o útero, amorizar meu corpo, fazer as pazes com as mulheres que habitam em mim.
Terça feira chorei no colo de Oxum e senti nossas lágrimas banhavam e lavavam a solidão que as vezes se aproxima. Chorei e pedi que mamãe me ensinasse a me aproximar do meu feminino, a curar meu feminino, a ser feminino de sangue e coração. As lágrimas de Oxum me banham e eu peço que a terra aceite meu sangue de volta pro berço.

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