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Você é fim de tarde

Você é uma poesia preste a ser parida. Prestes a ser engolida como a saliva de quem tem a boca seca, como a parada cardíaca de quem não cometeu excessos.
Você é a personificação da licença poética, a calma de observar os pássaros que comem goiaba, o eco de uma mãe que soluça o nascimento do primeiro filho, a lágrima da adolescente que recebeu sua primeira carta de amor, o gemido de uma mulher quando goza.
Você é o abraço de irmãos que não se vêem há anos, o colo de avó que acaricia a neta, o fim de tarde ouvindo o conselho dos nossos mais velhos. O primeiro bolo que não sola. Você é o sorriso da primeira composição de uma artista, o grito da menina de quatro anos que faz um gol, o suspense do homem que sabe ser inocente, a satisfação de quem aprendeu a nadar. Você é os primeiros passos do bebê, o sim do casamento, o olhar de cumplicidade entre melhores amigas. A risada da criança tomando banho de chuva.
Você é o canudo do diploma da formatura, é a sensação do açúcar descendo pela língua, é a receita culinária que deu certo, é a primeira entrevista de emprego bem sucedida, é o resultado favorável da minha iniciação científica.
Você é a lágrima de ler um romance, a respiração de alívio ao chegar em casa do trabalho, a sensação de se deixar levar pela música. Você é o arrepio da pele no banho frio, o ardor nos olhos pós banho de mar. Você é o gole de cerveja gelada no verão.
Você é a poesia que eu não sei escrever, mas que espero que entenda.

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