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A mulher negra que eu vi de perto

A mulher negra que eu vi de perto me disse pra não ter medo, que o caminho parece escuro mas escuro também é a cor da sua pele. A mulher preta que cantou pra mim, disse pra não ter medo do preto, que do preto nasceu toda vida. Tudo veio da preta e para a preta voltará porque o preto é calmaria, é sensibilidade, é descanso. É o início e o fim de um caminho, é a sensação de fechar os olhos e enxergar melhor, se encontrar, ouvir a si mesma dentro você. A mulher negra que eu vi de perto me pediu que eu tivesse calma, que escutasse as vozes pretas que me cercam e me contam histórias. Que de vez em quando me desse uma pausa e me colocasse como observadora da vida, pra ouvir melhor e me situar nessa história preta do mundo. Reescrever a história preta do mundo. A mulher preta que eu vi na minha frente me pediu, com sua voz forte e decidida, que eu me cuidasse antes de cuidar das minhas irmãs. Me pediu para não  esquecer que sou seu sonho mas que ela precisa descansar e seu descanso mora ...

Dança

Agora que acho que me livrei de você, volto aos meus livros e me livro do peso que é esperar sua chegada. Te livro da angústia do não ser, do não sentir. Agora que eu acho que dei uns passos para trás, eu vejo sua passagem breve, sua pele cheia de manchinhas do tempo, suas cicatrizes. E me percebo dançando entre elas, tocando e dizendo que eu as reconheço, mas elas não fazem parte de mim. Somos duas partes de um quebra cabeça muito maior e mais denso que a paixão. A gente conversa, se atrai e se repele porquê nenhuma de nós quer menos atenção. Você, parte principal desse processo, tenta enxergar de longe para não se perder na gente. Agora, que acho que não somos mais parte uma da outra, vejo você dançar em mim. Você toca minhas feridas, lambe minhas cicatrizes, arranha minha dor de realidade e a minha preguiça de não ser. Você flutua tentando se distanciar, mas a brevidade do acaso te puxa pro chão. Me puxa pro chão também. Fincando meus pés como raízes, me plantando em mim igual dia ...

A letra A

Sinto sua falta, sinto falta das nossas conversas, de ouvir sua risada, de falar besteira e de saber que mesmo em cidades diferentes a gente tava perto uma da outra. Sinto falta de saber sobre seu dia, se já comeu, se tá assistindo sob pressão e tomou seu café preto durante a tarde. Sinto saudades de saber se viu seu sobrinho essa semana, se seus pais te cuidam trazendo pizza quando você quer comer algo diferente. Sinto falta de ouvir você falar do trabalho, das suas amigas, suas reclamações sobre o baba e a falta de noção de alguns ilheenses. Sinto falta de você me dizendo que sente minha falta, que pensou em mim, que deseja que o meu dia seja ótimo e querendo saber como foi a escola hoje. Sinto terrivelmente a falta de poder te chamar pra falar de assuntos sérios, pra te contar o pesadelo que tem sido essa semana sem você, sobre os e-mails que recebi e a torneira de emoções que eu abri e ainda não dei conta de fechar. Sinto falta de te contar que estou com saudade, que quero te ver ...

Despedida - Mc Tha

Perdi as contas de quantas vezes eu abri a nossa conversa pra ver se tinha coragem de enviar alguma mensagem. A minha torcida para que você estivesse escrevendo algo era maior que a torcida do Brasil em época de mundial feminino e masculino. Tem emoção demais nesse processo. Mas seu online não durava muito tempo. Você sumiu. Eu sinto saudades. Mas não vou te procurar. Respeitar seu tempo é isso, não é? Depois de tudo que te falei, de todos os pratos que pus na mesa, não pode ser eu a ir até você, porque foi você quem se sentiu pressionada. Então eu me afasto, e fico no escuro. Sem saber se em alguma hora você vai chegar, se vai fazer questão de mim. É horrível se ver nessa situação, de quem se apaixonou novamente quando nem achava que tava pronta pra isso. Mas tem uma beleza também, porque me mostra que alguns processos anteriores já foram esquecidos, algumas dores já foram curadas e eu estou pronta pra outra. Queria que a outra fosse você e lembro de quando você disse que esperava qu...

Eu sou isso aqui

Parece que algumas vezes a ingratidão toma conta da gente. Estou jogada no chão da sala da casa nova, chorando e fungando porque estou com medo e raiva da cidade onde vou trabalhar pelo concurso. Ao mesmo tempo eu sinto raiva de mim por perceber que é nada menos que ingratidão. Estou frustrada e não estou sabendo lidar com a frustração. Uma vez você me perguntou porque eu tinha essa necessidade do sucesso. Na hora eu não sabia o que responder, eu nunca tinha me visto daquela forma. Eu tenho necessidade do sucesso porque eu me acho uma farsa. Eu não sinto segurança de ser quem acham que eu sou, quem eu digo que sou. Eu parei de aceitar convites pra oficinas e mesas. Eu desdenho quando alguém ressalta minha inteligência. No fundo eu sei que eu sou inteligente sim, mesmo sabendo que deveria me esforçar mais, pois não é com facilidade que as coisas entram nessa cabeça. Eu queria tanto conversar contigo. Não é justo, eu sei. Mas no mesmo dia que me perguntou sobre o sucesso você me dis...

Tesão

Lembro que seus olhos ardiam na primeira vez que me viu. Não me pergunte sobre a roupa que vestia, a música que tocava ou a hora exata que vi você me enxergar. Só lembro do calor repentino para uma noite fria de agosto e do ardor dos seu olhos. Você me comeu sem nem mesmo me tocar. A música tocando longe, as conversas foram sendo abafadas, e seus olhos me despindo no meio do bar. Piscando mais rápido que os milésimos pra gravar todos os meus traços, me arrepiando de antecipação ao te ver molhar os lábios. Meus olhos já nem tinham mais cor de tanto desejo. A vontade era de arrancar tua pele com a unha e fazer perfume pro dia a dia. Souvenir. Emoldurar sua cara que brilhava com o ar de quem não acreditava está com a mulher mais linda do mundo. Seus olhos me contaram. A vênus em áries fazia rebuliço dentro de mim. Analisando os sinais, interpretando as pistas que você me deu. O papel, o número, a ousadia e a distância. A espera. Os dedos descobrindo a gruta, caminhando entre...

Lugar de fala

Eu não falo em nome de ninguém pra que ninguém fale por mim. Não costumo dar ordens porque sou desobediente. Não gosto de surpresas porque tenho que estar preparada para tudo. Minha desordem altamente organizada e padronizada não pode ter interferências. Odeio interferências. Odeio o externo que chega sem avisar e quer mudar tudo. Sem saber o quê, como e o porque daquela desordem milimetricamente calculada. A noite, durmo. Não faço questão do barulho, não faço questão do calor, não faço questão da opinião. Prefiro aprender com o silêncio. Prefiro falar em meu nome. Não quero ninguém falando por mim.