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Reacender?

Então, tem essa vela, podemos chamar de vela não podemos? Ta, então, tem essa vela e ela ta acesa, então tem essa chama também junto com a vela e a chama é a vela... É sobre a chama que eu quero falar entende? Olha, não liga muito pra simbologia, só tente me entender, eu preciso te dizer isso. Tem uma vela, e tem a chama e elas são a mesma coisa, e então vem o sopro, vem o vento sabe? Ta me entendendo? Você consegue imaginar? Sim, imaginar, fecha os olhos vai, só escuta o que eu to tentando falar e imagina as coisas que você ta escutando. É imagina, por favor, eu preciso falar porque é importante que você saiba o que eu penso. Ok. Isso, olhos fechados, la vai. Tem a vela acesa, queimando e deixando a borra escorregar nas laterais como se tivesse transbordando. Isso, exatamente, como se tivesse chegado ao limite, mas agora fica quietinho por que eu odeio ser interrompida. A vela chegou ao limite e então ela esta transbordando, se esvaindo em borras e a borra vai se espalhando pelo chão ao redor da vela e o pavio vai queimando até que não tem mais pavio, não tem mais vela e logo não tem mais chama também...
Você consegue imaginar? Sim, que bom, ótimo... Então só resta a borra. De que cor? Ah eu não sei, branca, pode ser branca, a maioria das velas são brancas. Não? Ok, verde então a vela é verde, eu gosto. Obrigada, você é um amor, eu também acho que verde fica bem em mim. Mas voltando, agora só resta a borra verde no chão sem nada pra queimar, mas a borra ainda é quente sabe? Se tiver calor suficiente dá pra montar tudo de novo. É, dá sim, mas precisa de calor sabe, e eu não sei se a gente tem calor pra amolecer a borra e refazer a vela e acender uma nova chama e fazer durar essa chama. Como assim acender outra vela? Eu to falando de reconstrução, de sair do chão e reacender a mesma vela, por que é importante que a gente avive a mesma chama, que não deixe que ela se perca. As faíscas? O que tem as faíscas? Ah, claro, é possível que as faíscas tenham voado e que elas possam avivar outra chama com resquícios da anterior e ser uma chama contínua, eu entendi sim, claro, mas... Será que seria legal? Reacender assim, usando o mesmo fogo? Porque foi esse fogo que acabou a primeira vela, a verde, lembra? E se esse fogo não for bom o suficiente pra manter essa outra chama? Onde é a chama? Ah eu não sei, pode ser um candeeiro? Não? Que tal uma fogueira, é bem o que eu quero sabe? Eu queria na verdade, eu queria que a vela verde virasse uma fogueira, mas ela derreteu e poxa vida, isso é tão triste e tão cansativo, imagina então como seria? Você não imagina o que é passar por tudo novamente? Será que você não entende que reacender, reavivar, reviver, só vai nos fazer relembrar? É lógico que eu acho, por favor, presta atenção, eu to terminando e assim que eu acabar você pode voltar e assistir o seu programa. Abaixa o volume dessa  tv, não estamos surdo, aliás eu acho que você precisa me ouvir porque a cada segundo que passa a borra vai escorrendo e a chama vai se apagando e eu não tenho certeza se vou querer montá-la de novo. É lógico, de quem mais eu iria falar se eu não estivesse falando da gente? Como assim, nem sempre é sobre nós dois e eu acho que o erro é esse, é isso que ta fazendo a chama a se apagar, e o sopro que ta apagando a vela verde não é forte o suficiente pra fazer voar faíscas e aí quando a borra se espalhar e não tiver mais calor não venha me dizer que não avisei. Ora, como você pode falar isso? Me custa acreditar, nunca consegui usar metáforas com você, nunca consegui ser subjetiva, sempre tive que ser direta porque você nunca presta atenção direito. Lógico que nem sempre eu falava tudo, eu esperava um pouco mais de você mas você sempre me deu metade e foi vivendo me dando metade e achando que eu tava feliz recebendo metades de você quando eu me doava por inteira... Você se doou metade enquanto eu transbordava e ultrapassava os meus limites por você, enquanto eu me via louca e doente de amor eu recebia um leve resfriado de paixão e não poxa, eu tava não tava satisfeita. Como assim porque agora? Eu sempre tentei te dizer isso, você é que nunca me ouviu. Não, continua sentado ai e desliga a droga dessa tv, você já abriu os olhos e nem conseguiu imaginar o que eu tava falando sobre a vela. Aham, com certeza você lembra da cor, por que foi você quem deu a cor e você tem dessas coisas sabe, você sempre consegue lembrar quando direta ou indiretamente aquilo fala sobre você e meu Deus, eu tô cansada desse seu narcisismo, será que não dá pra me apoiar, ir além desse suporte do “eu concordo meu bem, acho que você ta certa”, você nunca fez mais que a sua obrigação, você nunca ultrapassou o limite, e eu acho que você nunca foi fogueira, você foi sempre a vela pela metade e eu estava farta, eu estou farta. Claro que eu fui feliz, eu sou feliz contigo mas é uma felicidade incompleta e, poxa, você é o único que me faz sentir assim, você me completa e desaponta de uma maneira tão proporcional que eu fico sufocada, e é tão automático que eu sempre espero desastres da sua parte. O que eu vou fazer meu bem? Eu é que te pergunto, o que você vai fazer? Você vai ficar ai sentando nesse sofá sempre me dando metades e vendo a chama se esvair ou vai começar a soprar bem forte e fazer as faíscas voarem e tentar acender a fogueira? O que você vai fazer meu bem? Elas não vão acender sozinha e eu estou transbordando, e sem mim não há calor suficiente nem pra remodelar a vela e ai você vai entender o que é ser inteiro e receber só a metade.

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